Montadoras asiáticas avançam na crise

Duas décadas após desembarcarem no Brasil, as montadoras asiáticas já praticamente se igualam às tradicionais marcas americanas na preferência do consumidor brasileiro, avançam sobre as concorrentes europeias, colocam um modelo ­ o HB20, da Hyundai ­ entre os três carros de passeio mais vendidos do país e, na maioria delas, estão se dando melhor na crise.

De 2014 para cá, a participação dos asiáticos no agora sétimo maior mercado do mundo subiu de 22,2% para 26,9%, mesmo com os resultados ruins das montadoras chinesas e da coreana Kia Motors diante da sobretaxação a veículos importados. Ou seja, um em cada quatro carros comercializados no Brasil sai de alguma concessionária de bandeira japonesa, coreana ou chinesa.

O avanço do bloco é puxado pela Honda, única montadora que cresce no país, com horas extras de trabalho na fábrica de Sumaré (SP) e alta superior a 17% das vendas, no embalo do lançamento, em março, do HR­V, utilitário esportivo líder de seu segmento.

Hyundai e Toyota já estiveram melhor. Não imunes à recessão setorial, inverteram a curva de crescimento. Ainda assim, caem menos do que os concorrentes e, por isso, ganham espaço. Embora o HB20, modelo de entrada da Hyundai, não tenha o mesmo impacto de três anos atrás, quando foi lançado, a montadora coreana se consolida como a quinta marca do país ao ampliar sua parcela sobre as vendas totais de 7% para 8%.

A Renault, que perdeu a quinta colocação para a Hyundai, corre também o risco de ficar atrás da Toyota, já que a distância a favor da marca francesa, hoje sexta no ranking, foi encurtada pelos japoneses para apenas 2,2 mil carros.

Lançamentos bem sucedidos em linhas menos expostas à crise ­ como sedãs médios e utilitários esportivos­, combinados à entrada, nos últimos quatro anos, da Hyundai, da Toyota e da Nissan nas gamas mais populares do mercado, dando escala a essas marcas, explicam o salto das montadoras asiáticas nos últimos anos.


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De janeiro a setembro, as marcas japonesas, coreanas e, em menor volume, chinesas venderam 505,5 mil carros no Brasil, ou 9 mil a menos do que as americanas, cujo pelotão é puxado por General Motors (GM) e Ford, presentes aqui há mais de 90 anos. É uma diferença mínima, sobretudo se considerado que essa curta distância seria pulverizada não fosse a chegada da Jeep com produção local e que, até o início da década passada, quase todas as vendas estavam nas mãos de europeus ou americanos.

A maior fragmentação do mercado é fruto de um processo iniciado nos anos 90 com a instalação de fábricas de grupos franceses e japoneses -­ Renault-­Nissan, Peugeot Citroën, Honda, Toyota e Mitsubishi -­ e acentuado a partir de 2012, quanto tanto a Toyota como a Hyundai começaram a montar carros populares no país.

Quase uma década de crescimento ininterrupto da demanda por automóveis fez do Brasil um destino obrigatório das grandes montadoras internacionais, em especial a partir da crise financeira de 2008/2009, quando atacar países emergentes passou a ser a saída perante às dificuldades enfrentadas em mercados desenvolvidos. O resultado disso é que, hoje, 26 marcas disputam o consumidor brasileiro com 2,8 mil modelos e versões diferentes de carros.

Até meados dos anos 90, as opções se resumiam a quatro grupos: Fiat, General Motors (GM), Volkswagen e Ford. Elas nadavam de braçada, mas, com a chegada e expansão dos negócios da concorrência, a participação de mercado das “quatro grandes” foi definhando ano a ano: dos mais de 82% em 2003, chegou a 65% no fechamento de 2014 e agora está em 59,3%.

“Essas montadoras estão na porta de entrada do mercado. Vendem a um público pressionado pelo menor poder de compra e pela dificuldade no acesso ao crédito. Elas desceram para abaixo de 60% mais rápido do que imaginava”, diz David Wong, analista da consultoria AT Kearney, que apostava numa participação mais próxima de 70% do “top four” neste ano.

Donas dos maiores volumes, as empresas do pelotão de frente da indústria automobilística nacional são as que mais tem a perder com investidas de novatas. A Fiat se sustenta como a marca líder do Brasil pelo décimo quarto ano seguido, mas, por outro lado, é a que mais cede terreno em 2015. Até setembro, a montadora italiana emplacou 173,6 mil carros a menos do que em igual período de 2014, reduzindo sua participação de 21,5% para 18,2%.

A fatia da Volks, na mesma base de comparação, cai de 17,6% para 15%, ao passo que a GM vê a participação encolher para 18,2%, comparativamente a 17,4%. Na contramão do trio que está à sua frente, a Ford saiu de 9% para 10,7% do total de carros vendidos no país, embalada pelo volume adicionado com o lançamento da nova geração do Ka, seu modelo de entrada.