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Ricardo Itikawa    |   06/10/2025   |   Lean na Indústria   |  

Comando e controle versus mentoria e cadeia de ajuda

Exclusiva

Na dinâmica e competitiva da indústria moderna, a forma como se lidera equipes se torna, cada vez mais, um diferencial crucial. Por muito tempo, um modelo de gestão dominou os chãos de fábrica e escritórios: o chamado "comando e controle", enraizado em muitas empresas, que têm como base a premissa de que os líderes devem constantemente ordenar aos liderados “o quê” e “como” executar as tarefas.

Quem vive a realidade industrial com um pouco mais de inteligência e sabedoria provavelmente já descobriu – ou deveria ter percebido – que as características do comando e controle revelam no cotidiano das organizações um ciclo de perdas: Por exemplo, baixa autonomia e microgestão. As equipes frequentemente recebem ordens superiores e tarefas distribuídas em seu nível mais granular, muitas vezes especificando até o "como fazer". Isso sufoca a criatividade e a capacidade de resolução de problemas na linha de frente.

Isso, frequentemente, gera um ambiente de culpa, ocasionando um ambiente de baixa segurança psicológica, que se intensifica quando o resultado esperado não é alcançado, o que acarreta numa busca rotineira por culpados. Nesse contexto, os problemas são geralmente atribuídos aos executores, eximindo a liderança que definiu a estratégia ou a tarefa.

Quando tudo isso ocorre, estrutura-se na organização um ambiente com baixíssimas contribuições efetivas das pessoas, com consequente diminuição do reconhecimento dos indivíduos. Eles se sentem meros "corpos que têm braços e pernas, sem um cérebro para pensar e contribuir". O reconhecimento é escasso, partindo-se do princípio de que a entrega não foi mais do que a obrigação.

Este modelo é duplamente perigoso. Ele desmotiva e limita o potencial dos colaboradores. E, paradoxalmente, ele também expõe o líder, que pode ser responsabilizado por uma estratégia falha, mesmo que a equipe tenha cumprido a tarefa. Em essência: todos perdem.


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Um processo evolutivo de melhoria contínua, vital para a indústria, exige observação, geração de hipóteses, experimentação, análise de respostas e aprendizado. Esse ciclo só atinge seu potencial máximo em grupos polivalentes e multifuncionais, onde as melhores ideias nascem do "choque de pensamentos que se complementam", mas não da escolha do "menos pior".

Em contrapartida a este cenário limitante, surge um modelo de liderança que reconhece o valor integral de cada colaborador. Ele se organiza em dois conceitos e práticas lean que se complementam: a liderança que atua no "modo mentoria” e a estrutura da “cadeia de ajuda".

Esse modelo preconiza a criação de um ambiente psicologicamente seguro, onde a liderança não apenas permite a colaboração ampla, mas a incentiva, utilizando a observação, experimentação e aprendizado como ferramentas de desenvolvimento de pessoas. O objetivo é que os indivíduos tenham maior senso de propriedade e protagonismo na busca por soluções. Assim como em um time de futebol, a força reside na união e no desempenho coletivo.

As características centrais deste novo modo são transformadoras:

  • Líderes questionadores, “não mandantes”: em vez de ordenar comandos e tarefas, o líder faz as perguntas certas e abertas que estimulam a equipe a pensar e agir em busca dos objetivos.
  • Apoios e recursos: o líder atua na cadeia de ajuda, oferecendo mentorias e os recursos necessários para que a equipe alcance as metas.
  • Soluções “da base”: uma vez compreendido o propósito e os objetivos, as soluções e melhorias emergem da base. Os colaboradores se tornam solucionadores de problemas naturais, experimentando novas abordagens.

Em médio e longo prazos, esse modelo não apenas melhora o moral, mas desenvolve uma organização mais produtiva e competitiva. Ela se torna mais ágil e menos dependente da liderança para reagir a problemas, superando as limitações do modelo conservador de comando e controle.

Para que a indústria consiga realizar essa migração do "comando e controle" para o "modo mentoria” com a “cadeia de ajuda", uma mudança no estilo de liderança é fundamental. Não se trata de abandonar a responsabilidade, mas de transformá-la. O caminho para essa transformação passa por etapas essenciais:

  • Foco estratégico: Priorizar os principais problemas a serem resolvidos, dando foco aos esforços.
  • Capacitação da liderança: Treinar os líderes, em todos os níveis, em métodos de solução de problemas e no novo estilo de gestão.
  • Mentoria ativa: estruturar uma mentoria dos próprios líderes, ajudando-os ativamente a implementar as ações transformacionais.
  • Delegação responsável: dar a oportunidade para que os times assumam suas responsabilidades e tenham “sentimento de posse” sobre as soluções.
  • Suporte contínuo: apoiar os times com a cadeia de ajuda sempre que encontrarem entraves ou dificuldades.
  • Cultura de reconhecimento: reconhecer e celebrar os avanços, por menores que sejam, validando o esforço e a iniciativa.
  • Aprendizado e padronização: refletir sobre as lições aprendidas e padronizar as melhores práticas para sustentar os ganhos.
  • Melhoria contínua: Reiniciar o processo em novos ciclos, buscando patamares cada vez mais elevados de desempenho.

A sustentabilidade da evolução industrial exige que a liderança pare de se ver como a detentora de todas as respostas e passe a ser a facilitadora das perguntas certas. Apostar no engajamento de todos e na formação de uma equipe solucionadora de problemas, em um ambiente psicologicamente seguro, não é apenas um modismo: é a rota mais segura para a competitividade sustentável na indústria do futuro.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.
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Ricardo Itikawa

Head de Manufatura e Desenvolvimento de Produtos e Processos do Lean Institute Brasil (LIB). Foi corresponsável pelo desenvolvimento do sistema lean na Embraer (Programa Excelência Empresarial Embraer - P3E), atuando como gerente. Especialista em TPM, liderou projetos 3P da nova fábrica de Portugal. Foi Black Belt na Ambev. Atuou como professor durante quatro anos no MBA de Gestão e Eng. da Qualidade da Poli-USP. É Engenheiro Mecânico pela UNESP, tem MBA em Gestão Empresarial pela FGV, Cursos de Pós-Graduação no ITA e é Black Belt em Seis Sigma pela Fundação Christiano Ottoni/UFMG.

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