por Wesley Sa Teles Guerra    |   24/05/2022

Transição energética na Europa, agora ou nunca

A Guerra na Ucrânia expôs a dependência da União Europeia diante dos recursos energéticos da Rússia e trouxe à tona a necessidade de avançar na transição energética do bloco.

A Guerra na Ucrânia expôs a dependência da União Europeia diante dos recursos energéticos da Rússia e trouxe à tona a necessidade de avançar na transição energética do bloco e redefinir o futuro da indústria na região.

Não é de hoje que a União Europeia busca reduzir sua dependência energética da Rússia e dos países do norte da África, promovendo o uso de energias renováveis. Já em 2001 foi aprovada no Parlamento Europeu a diretiva 2001/77/CE, visando a promoção das energias geradas a partir de fontes renováveis no mercado interno, provocando uma expansão da produção eólica e solar sem embargo à falta de consenso e às intermináveis reformulações das metas climáticas, assim como o efeito da Crise Financeira Internacional na região do Mediterrâneo dilatou o processo.

A aprovação de leis como o Real Decreto 90/2015 ou imposto transitório sobre a energia autoconsumida, mais conhecido como “Imposto do Sol”, aprovado na Espanha e somente derrogado em 2018, desestimulou o setor, assim como a crescente pressão social em relação a instalação de geradores eólicos ou as polêmicas que envolvem o uso da energia nuclear e de gás como fontes renováveis.

Por outro lado, a crescente oferta de veículos elétricos, cujo valor de mercado é notavelmente superior aos de combustível fóssil, e o aumento das restrições à circulação destes últimos gerou um impasse na sociedade - que por um lado é estimulada a aquisição de carros mais sustentáveis e por outro lado sofre com o aumento contínuo do preço da energia.

Desse modo a transição energética se transformou no grande paradigma da União Europeia, que busca reduzir sua dependência em relação aos recursos exteriores, mas que simultaneamente impossibilita uma transformação de fato, devido aos elevados custos e a assimetria na divisão de recursos destinados a estimular as energias verdes, fazendo com que a meta de 20% - e que depois foi revisada para 32%, em 2030, conforme o Pacto Verde Europeu - de que toda sua produção energética fosse oriunda de fontes renováveis fosse incompatível com a realidade da maioria dos países membros.

E muitos são os desafios que enfrentam a Europa em sua transição, a falta de recursos hídricos impossibilita a produção em grande escala de energia hidrelétrica, além do estresse hídrico de toda a região Mediterrânea e a concentração de suas indústrias em eixos de baixa produção de energia, porém com elevada densidade urbana.

A internacionalização de grande parte da indústria europeia a países da América Latina e Ásia, também é um fator de risco, que se evidenciou durante os efeitos da pandemia, forçando muitas fábricas a parar sua produção devido a falta de componentes fabricados em países de fora do bloco, principalmente da China.

O custo do Megavatio hora chegou a superar 700 euros em países como a Espanha, impactando diretamente na inflação e no preço da produção gerando o feito conhecido como “pobreza energética” que afeta a milhares de famílias em países como Espanha, Itália, Grécia e Portugal.

O maior efeito do dilema energético da Europa foi a crise e, posteriormente, a guerra da Ucrânia, já que vai além dos anseios de expansão da OTAN e da própria União Europeia, pois está em jogo o subministro de gás no terço norte do bloco que por sua vez apresenta a maior densidade industrial da Europa e é o polo de transformação da chamada Industria 4.0.

A Europa enfrenta a necessidade de reduzir sua dependência energética, transformar sua indústria, cumprir com as metas ambientais e minimizar o impacto socioeconômico.

Sem dúvida, todo um desafio para um continente que externalizou grande parte de sua produção e que mesmo concentrando elevadas rendas e índices de desenvolvimento, possuí processos complexos tais como o envelhecimento de sua população, resistência aos processos migratórios, concentração da produção e urbanização, desigualdade econômica e perda demográfica no interior dos países.

É hora de inovar para não perecer diante das estruturas do velho continente... estimular não somente o consumo, mas também a produção interna, reformular a indústria e induzir novos processos demográficos que ocupem a totalidade do território, diante da complexidade e da dificuldade de estabelecer um consenso entre nações assimétricas e muitas vezes competitivas entre elas.

A transição energética é a chave do desafio europeu, porém a forma na qual a Europa irá conseguir concretar essa mudança é o grande paradoxo oriundo do próprio processo evolutivo do bloco e do cenário global, onde a externalização excessiva e a privatização serviu para o acúmulo de capital, porém gerou uma forte dependência de fatores externos alheios aos anseios da União e a busca incansável pelo lucro, cuja fatura final pode ser excessiva para a população da região.

A reformulação proposta pela revolução 4.0, assim como os preceitos da economia circular, podem ser a única solução para a Europa e consequentemente para o resto do mundo diante de um cenário cada dia mais interdependente, porém com maiores divergências entre os atores implicados.

O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

Wesley Sa Teles Guerra

Perfil do autor

Wesley Sá Teles Guerra, brasileiro, residente em Ourense (Galicia), PHd Candidate em Sociologia e Mudanças da Sociedade Contemporânea, Mestre em Políticas Sociais e Migrações, autor do livro Cadernos de Paradiplomacia e do estudo Brasil Galicia. Membro associado do IGADI – Instituto Galego da Análise e Documentação Internacional, do OGALUS – Observatório Galego da Lusofonia e da Associação Impulsora da Casa da Lusofonia. Fundador do Think tank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais do Brasil.


Comentários